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Contratar ou não contratar: Vale a pena trazer os filhos para a empresa familiar?

Os Dunbars são uma família canadense extremamente unida que controla uma importante corporação da indústria de plástico. O patriarca, e presidente da empresa, recentemente contratou dois filhos, deixando claro que seriam tratados como funcionários sem vínculos com a família. Quando um dos filhos cometeu um pequeno erro de atendimento ao cliente, o pai o repreendeu severamente. O filho descreve assim o incidente: “Meu nome parece ser um problema aqui na empresa. Meu pai e eu somos muito próximos, mas agora que trabalho aqui, ele tem tanto medo de mostrar favoritismo que demonstra menos paciência comigo do que com os outros funcionários”. Além disso, o filho notou que sua entrada no negócio adicionou pressão no relacionamento com sua irmã mais velha – para quem agora trabalha diretamente.

Uma das decisões mais cruciais que você precisará tomar em seu negócio familiar é a de contratar ou não seus filhos ou sobrinhos. E o desafio é ainda maior porque exige que você vista três chapéus simultaneamente: do proprietário, do gestor e do pai ou tio.

Nada fácil. Os papéis claramente se misturam, e a situação oferece muitas oportunidades para ferir sentimentos ou deteriorar relacionamentos. Essencialmente, proprietários de negócios familiares precisam ser capazes de manter os assuntos de trabalho na empresa e as questões familiares na família. E isso requer ao mesmo tempo um bom domínio sobre as emoções e uma situação empresarial e familiar bem estruturada.

E essa é a parte realmente difícil. Como proprietário/chefe, um pai ou uma mãe tem de controlar seus próprios sentimentos e exigir profissionalismo do funcionário/filho. Mas como pai ou mãe também deve dar ao representante da próxima geração o amor e o acolhimento de que precisa para ter sucesso – mesmo que isso signifique demiti-lo, caso venha a ser necessário. Manter essa clareza de pensamento e o controle dos sentimentos exige aderir a um processo rigoroso ao tomar a decisão de contratar, o qual deve continuar durante todo o desenvolvimento da carreira dos filhos e até a aposentadoria.

Se for feito do modo correto, contratar filhos pode ser a melhor resolução para seu negócio e sua família. Geralmente recomendamos que membros jovens da família adquiram primeiro um pouco de experiência fora do negócio familiar. Dito isto, ao se desenvolver plenamente no negócio, a próxima geração pode dar continuidade ao legado familiar e proporcionar estabilidade para os funcionários que não são da família. Contudo, decisões na hora de contratar podem afetar negativamente a empresa – e também podem destruir relacionamentos familiares e de trabalho. Portanto, antes de contratar um filho, é preciso considerar diversos fatores, tanto como proprietário de um negócio quanto como pai ou mãe:

  1. Para que cargos os filhos estão qualificados? Jovens podem ser contratados em cargos de treinamento, mas aqueles que acabaram de se formar e ainda não têm nenhuma experiência não devem ser colocados imediatamente em posições de muita autoridade. Uma meta importante deve ser a de ensinar a próxima geração sobre as habilidades necessárias para ter sucesso no negócio no longo prazo. O primeiro passo é lhes dar funções nas quais podem aprender e crescer – e também sentir que mereceram o lugar que ocupam. Você estaria fazendo um grande desserviço para seus filhos, e para o negócio, se os contratasse para cargos para os quais não estão qualificados.
  2. Que trabalho eles querem? Essa consideração pode parecer óbvia, mas proprietários frequentemente deixam de levar em conta as paixões e os interesses dos filhos ao lhes darem um cargo na empresa. Antes de contratar seus filhos, converse com eles sobre que aspectos dos negócios lhes interessam mais. Veja as matérias que escolheram na faculdade e os trabalhos voluntários que fizeram para entender suas possíveis paixões pessoais. Dar oportunidade para que os membros da próxima geração escolham sua área de interesse contribui para que se sintam mais comprometidos com o trabalho e menos propensos a culpar os outros pelos erros ou frustrações que são partes inevitáveis de todo trabalho novo.
  3. Como você pode preparar a família e a empresa? Empregar alguém da próxima geração afeta a pessoa e tem um efeito dominó sobre todo o sistema de negócio familiar. Funcionários que não pertencem à família, especialmente os que estão na empresa há muito tempo, precisam saber que seu filho ou sua filha receberá o mesmo tratamento e terá as mesmas expectativas que todos os outros empregados. Um irmão pode sentir inveja do outro que está entrando no negócio, e seus sentimentos têm que ser administrados. O maior impacto costuma ser nos pais. Pense bem em como você vai estabelecer os limites entre seu papel de pai ou mãe e o de patrão. Oportunidades de emprego vão e vêm, mas o relacionamento com seus filhos é para a vida toda.
  4. Quais são as implicações para o futuro da propriedade? Seus filhos conhecem os critérios segundo os quais você transferirá a propriedade para a próxima geração? Membros da próxima geração que trabalham na empresa receberão mais propriedade ou mais direitos de voto do que os irmãos que não trabalham na empresa? Seja o mais claro que puder sobre isso logo de início.
  5. Como eles receberão críticas, e o que acontecerá se não estiverem indo bem? Emprego não deve ser um direito de nascença. E isso é importante que tanto a família como os funcionários da empresa entendam. Contudo, receber avaliações, ou mesmo críticas construtivas, é difícil em um negócio familiar, e será útil criar processos de desenvolvimento profissional e sugerir mentores (do conselho ou de fora da empresa). Demitir um membro da família pode ser traumático de muitas maneiras, portanto, estabelecer as condições de emprego antes que um membro da família seja contratado ajuda a tornar a decisão de demitir mais fácil, e menos pessoal, caso seja necessário chegar a isso.

Uma recomendação final. Experimente praticar esses princípios em situações reais. Convide seu filho ou filha para um projeto não relacionado com a empresa para ver como vocês trabalham em parceria. Tente tomar decisões conjuntas em situações de baixo risco. Exemplos de projetos desse tipo incluem organizar um evento filantrópico local, reformar a casa de campo (decidir o orçamento, selecionar os fornecedores, e assim por diante) ou desenvolver projetos pontuais na empresa. Isso pode parecer um pouco estranho ou forçado no início, mas ajuda a dar uma ideia de como você e seu filho ou filha se entendem trabalhando juntos no curto prazo antes de se comprometerem a uma vida de trabalho na empresa familiar.

 

Artigo originalmente publicado em: www.freeenterprise.com, 30/08/2013. Tradução: Joana Canêdo.