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Sinais de que você está perdendo o controle de seu negócio familiar

Quando o CEO/presidente do conselho de uma empresa familiar, um executivo que não pertencia à família, inesperadamente anunciou aos acionistas que teriam de viver sem dividendos ou vender o negócio, Tommy sussurrou no ouvido do primo: “O que está acontecendo? Os números sempre foram excelentes”.

Apesar do choque, Tommy e os demais acionistas aceitaram partilhar a responsabilidade pela situação. Por anos, haviam sido proprietários distraídos e desengajados. Nenhum membro da família trabalhava na empresa, e os que tinham uma cadeira no conselho de administração apenas chancelavam as decisões da diretoria. Tinham sido espectadores passivos, até serem confrontados com a realidade de que corriam o risco de perder o negócio que era da família há três gerações.

Embora os detalhes variem, histórias de famílias que perderam o controle de seus negócios são comuns. Imagine o que aconteceu quando um patriarca relativamente jovem morreu de repente sem deixar um plano de sucessão. Os filhos não tinham se preparado para assumir e a viúva não tinha experiência de negócios. Ela contratou um executivo que não pertencia à família para o cargo de diretor presidente, e este tratou a empresa como seu pequeno feudo. Por fim, ele tentou comprar a empresa por um valor deflacionado. A experiência arrasou a família tanto do ponto de vista emocional quanto financeiro.

Não é raro que um diretor presidente que não pertence à família desempenhe o papel de vilão nessas situações, mas a responsabilidade em geral repousa nos acionistas, que deixaram um vazio no espaço de poder, logo preenchido por outros. Na falta de um direcionamento substantivo por parte dos acionistas, alguns executivos contratados, compreensivelmente, vão trabalhar de acordo com seus próprios interesses. Mas mesmo quando as famílias têm a sorte de encontrar um líder dedicado e desinteressado, e já vimos muitos, os acionistas precisam expressar o que querem em uma única voz. Sem isso, não há como garantir que seus interesses serão perseguidos.

Existem sinais de alerta indicando que sua família pode estar correndo o risco de perder o controle dos negócios? Identificamos cinco sinais significativos:

  • Os dividendos são sempre os mesmos. Se vocês recebem dividendos estáveis ano após ano, então precisam começar a se preocupar. Metas de distribuição de lucro são importantes, mas os dividendos de uma empresa bem administrada são sempre incertos, e deveriam variar de acordo com seu desempenho e as oportunidades futuras. Uma discussão anual sobre os lucros da empresa e o que fazer com eles deveria ser de praxe. Se os acionistas se acostumam a receber dividendos sem questioná-los, no pior dos casos tratando-os como um direito de nascença, acabam por comprometer um importante mecanismo de controle dos negócios: o de decidir quanto deveria ser reinvestido anualmente.
  • As reuniões do conselho de administração são uma formalidade. Um conselho de administração (ou consultivo) é essencial para garantir que a empresa esteja buscando os objetivos dos acionistas. Nos melhores casos, conselheiros independentes trazem reflexão, experiência, conhecimento e disposição para confrontar a gestão. O papel dos acionistas é assegurar que o conselho seja adequadamente formado e que tenha autoridade. Como é o conselho de administração da sua empresa familiar? É uma entidade apenas “no papel”, que raramente se reúne e apenas chancela as recomendações da diretoria? Uma estrutura formada por amigos da família ou só com aliados do diretor presidente? O papel do conselho é nebuloso ou indefinido? Se a resposta for “sim” para qualquer uma dessas perguntas, então você está abrindo mão de uma ferramenta essencial para manter o controle dos negócios.
  • Os acionistas recebem informações de mais ou de menos. Enquanto acionista, você deveria receber informações precisas e assíduas sobre o desempenho da empresa. Atualizações de 15 minutos (“O negócio está indo muito bem!”, “Aproveitem seus dividendos!”) ou “resumos” de 200 páginas deveriam fazer disparar um alarme. Se você não trabalha na empresa, já sofre uma desvantagem inicial, pois não tem conhecimento de primeira mão sobre o que está acontecendo. Quando a diretoria se exime de fornecer informações ou inunda os acionistas de detalhes, fica difícil saber como os negócios estão indo e qual seu potencial.
  • O diretor presidente parece insubstituível. Existem executivos contratados capazes de administrar um negócio familiar e entregar resultados excepcionais demonstrando ao mesmo tempo um genuíno engajamento em relação à família. Faça o que puder para manter pessoas assim. Por outro lado, preste atenção se você (ou eles) estiver falando e agindo como se eles fossem insubstituíveis. Respeito e apreciação por um trabalho bem feito são saudáveis. Medo e dependência não. Executivos insubstituíveis podem começar a tomar decisões independentes, acreditando saber mais do que você sobre o negócio. Podem até se referir a vocês como “as crianças”. Se os acionistas da família sentem que precisam pisar em ovos perto do diretor presidente contratado, esse comportamento pode estar sinalizando um perigoso desequilíbrio de poder.
  • Membros da família são afastados dos negócios. Algumas vezes a família perde o controle da empresa porque a geração anterior fechou as portas a novos membros durante o processo de sucessão. Existe um preconceito, real ou percebido, em relação ao talento da próxima geração – ou ainda um medo de provocar conflitos familiares. Assim, são implementadas políticas de contratação que impedem ou tornam muito difícil que membros da família trabalhem na empresa. Há casos em que essa “profissionalização” do negócio familiar pode fazer sentido. Mas é bom estar ciente de que a conexão direta da família com as operações da empresa vai ser rompida. Não é necessário que você se encarregue da gestão os negócios. Mas ter acionistas trabalhando na empresa ajuda a família a manter um dedo no pulso dos negócios.

Ao se dar conta de que perdeu parte ou quase todo o controle da empresa, está na hora de se perguntar se é o caso de continuar com o negócio familiar. Você pode decidir que está na hora de vender. Mas se optar por retomar as rédeas da empresa, é precioso se tornar um acionista ativo. Isso não significa que de uma hora para a outra vai passar a microgerenciar os executivos ou interferir em decisões operacionais.

O que significa então ser um acionista ativo e retomar as rédeas da empresa? Para lidar com essa e outras questões importantes, o primeiro passo é criar um espaço onde você e outros acionistas possam se reunir (sem os executivos que não pertencem à família ou os membros do conselho) para falar sobre seu papel no negócio e suas aspirações. Costumamos chamar esse espaço de Conselho de Acionistas. Trata-se de um fórum no qual os acionistas podem definir suas prioridades para a empresa e discutir como levar juntos essas prioridades ao conselho de administração e à diretoria.

Depois de criar o Conselho de Acionistas, está na hora de começar a definir os objetivos para a empresa. É responsabilidade dos acionistas estabelecer políticas financeiras claras para a distribuição de dividendos e os níveis de endividamento, assim como definir barreiras financeiras e não financeiras, tais como estabelecer um retorno sobre a meta de investimento ou banir certos tipos de investimento, como por exemplo em tabaco. Uma das funções mais importantes dos acionistas é conduzir o processo de seleção dos membros do conselho de administração. É claro que podem solicitar orientação de outras pessoas, como por exemplo de um comitê de indicação, mas a decisão final é dos acionistas. Dessa maneira, é sua responsabilidade garantir que o conselho vai escolher um excelente diretor presidente que apoiará a agenda que estabeleceram.

Manter o controle dos negócios familiares não é tarefa fácil. Para começar, em geral ser acionista não é um trabalho de tempo integral, mas algo periférico em sua vida e atividades diárias. Você também pode sentir que não está preparado o suficiente para exercer seus direitos com ponderação quando as finanças da empresa parecem impenetráveis. Talvez você nunca se torne um especialista em, digamos, retorno do capital investido, mas isso apenas reforça a importância de estruturas que permitam que você possa contar com o conhecimento de pessoas que compreendam seus valores e estejam dispostas a implementar sua agenda. Ao se tornar um acionista mais ativo e efetivo, é possível se desincumbir de muitas decisões sem no entanto perder o controle dos negócios familiares.

 

Alguns dos detalhes identificadores nesse artigo foram mudados para proteger a confidencialidade dos clientes.

Artigo originalmente publicado em: Harvard Business Review, 07/04/2017. Tradução: Joana Canêdo.